Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, de Charlie Kaufman e Michel Gondry, é um filme de uma excelência inusitada. Gondry vem de uma das piores “escolas” de cinema da “pós-modernidade” — a publicidade e os videoclipes — e Kaufman, por sua vez, é um roteirista pretensioso e prolixo cujas pretensão e prolixidade são geralmente confundidas com originalidade.
Em Brilho Eterno, contudo, há uma feliz harmonia de meios, construída a partir da imaginação de Kaufman e da criatividade imagética de Gondry.
Em um apertado conjunto de salas comerciais, com equipamentos tecnológicos de qualidade duvidosa, funciona a Lacuna Inc., uma empresa que, segundo o seu chefe e proprietário, o Doutor Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson), oferece a possibilidade de “uma nova vida” para seus clientes/pacientes.
O serviço oferecido pela empresa consiste em apagar as memórias indesejadas dos pacientes (geralmente associadas a relacionamentos amorosos mal sucedidos) mediante um processo de mapeamento das lembranças que estejam, de alguma maneira, ligadas a uma pessoa amada. Depois de identificadas e de narradas pelo paciente, essas lembranças são apagadas para sempre, deixando uma “lacuna” no conjunto de sua memória.
Joel Barrish e Clementine Krzucinski (em belas atuações de Jim Carrey e Kate Winslet) são dois namorados que, depois de alguns conflitos em que acabam ofendendo-se mutuamente, decidem solicitar os serviços da Lacuna. Primeiro, é Clementine quem solicita o serviço. Mais tarde, Joel, com raiva por ela o ter feito, também decide “apagá-la”.
A maior parte do filme ocorre dentro da memória de Joel, que, ao perceber o quanto as suas lembranças eram valiosas (ainda que lhe causassem sofrimento) inicia uma luta contra os técnicos que estão tentando apagá-las. Ele procura por um lugar, dentro de sua memória, que seja inacessível à tecnologia da Lacuna.
Essa jornada pela sua memória é também um processo de autoconhecimento e de amadurecimento emocional. Acompanhá-la é uma experiência cinematográfica ao mesmo tempo provocante e prazerosa.
O Eu aniquilado
Os principais fatores que fazem com que algo permaneça em nossa memória — que fazem com que uma lembrança se transforme em uma parte indistinguível do nosso eu — são o interesse e a emoção. A maioria das nossas experiências será esquecida, mas aquelas situações nas quais estivemos comprometidos pelo nosso interesse ou pelas consequências emocionais advindas da situação mesma serão conservadas em nossa memória. Em Brilho Eterno, esse comprometimento emocional ocorre, logicamente, pelo amor.
O núcleo temático do filme é a profundidade do amor; o seu poder de transcender até mesmo o desejo consciente pela perda da memória. Daí a explicação da frase do diretor Michel Gondry, segundo a qual “até agora, a tecnologia foi bem sucedida em fazer-nos esquecer de tudo… exceto as coisas das quais não queremos lembrar”. Essa necessidade de esquecimento está, neste caso, ligada ao sofrimento provocado por um relacionamento mal sucedido. E o próprio diretor diz não conseguir mais assistir a Brilho Eterno pelo fato de que a namorada que ele tinha na época o abandonou durante a produção do filme. Ou seja, em um processo parecido com o que ocorre com os seus protagonistas, para o próprio Gondry o filme se transformou em um poderoso gatilho de associações mnemônicas, que pode desencadear todas as emoções relacionadas a situações bastante específicas vividas por ele e sua ex-namorada. Talvez ele também desejasse, à maneira de suas personagens, ter suas memórias apagadas, uma vez que elas lhe provocam dor.
Mas o problema de aniquilar uma lembrança, por mínima que seja, é que também se está apagando um pedaço do seu próprio eu. Por exemplo, quando Joel diz que não consegue lembrar-se de nenhuma situação de sua vida em que Clementine não estivesse presente é porque, mesmo as suas memórias do passado, de antes de ele conhecê-la, acabaram por ficar, de algum modo, relacionadas a ela.




Quando a vida de uma pessoa está inextricavelmente ligada à de outra, todos os momentos guardados no “vasto acervo da memória” iluminam-se de um novo conhecimento. Como no poema de Fernando Pessoa, o encontro entre dois indivíduos que se amam desencadeia “um novo ritmo no espaço”.1 No processo de criação de intimidade, os companheiros contam uns para os outros os episódios mais significativos de suas vidas. E a memória dessas vidas, antes individual, passa a ser uma memória comum. A intimidade ajuda “o amador” a imaginar as experiências conhecidas apenas por meio de uma narrativa. E, como no conhecidíssimo verso de Camões, o “amador transforma-se na coisa amada”.
Assim, o ato de alguém desistir de sua própria, de tudo o que formou o seu “eu” até o estágio atual da vida, é revoltar-se, infantilmente, contra um destino que não se pode dominar. Por isso, a anulação da parte sofredora do eu é uma revolta contra a própria vida, pois, despida de sua dialética essencial, de todas as suas fontes de sofrimento, a vida acaba mesmo por perder o sentido.
Clementine percebe essa ausência de sentido quando sente que as partes aniquiladas de sua memória eram essenciais para quem ela tinha sido até então, e acaba por sofrer ainda mais. “Nada faz sentido”, ela repete angustiadamente. Em seu caso, é um processo que provoca até reações físicas. Quando a sua memória está sendo apagada da mente de Joel, ela diz: “Minha pele está envelhecendo”, “meu cabelo está caindo”. Pois a sua pele, o seu cabelo, o seu corpo como um todo, viveram aquelas memórias.

Além disso, há o valor intrínseco de cada momento, o qual só pode ser medido quando considerado em relação com todas as outras experiências vividas. É natural que a vida seja um contínuo movimento entre forças antagônicas, entre luz e trevas — assim como o sofrimento e a felicidade são evidentemente sentidos. Para a consciência, a dor ilumina a alegria, e vice-versa. A felicidade às vezes atingida justifica a imperfeição do nosso percurso humano como um todo. Por isso, eliminar a tristeza é também eliminar a alegria, pois há uma conexão entre todos os momentos da vida.
Em Brilho Eterno, tal conexão fica evidente quando Joel e Clementine se reencontram, depois que as suas memórias já foram apagadas: Joel diz não conhecer nenhuma piada com o nome de Clementine. Na ordem do filme, essa cena aparece por primeiro, mas, cronologicamente, ela acontece depois. Por isso, quando descobrimos que o boneco favorito de Joel quando criança era o do personagem Huckleberry Hound (Dom Pixote), que as crianças conheciam pela música “Oh! My Darling Clementine”2, ficamos sabendo que, ao ter as lembranças de Clementine apagadas de sua memória, Joel também perdeu parte das suas lembranças da infância e, consequentemente, de todas as outras fases de sua vida. Logo, de todos os pedaços do seu eu.
O Eu recuperado
Embora seja um filme até certo ponto sombrio, Brilho Eterno não condescende com uma visão meramente niilista da vida (o que é surpreendente quando analisamos a obra de Kaufman como um todo). Pelo contrário, a melancolia que a perda da memória acarreta, retratada com sensibilidade pelo harmonioso conjunto de sons e imagens que são as cenas construídas por Gondry, consegue demonstrar o valor da memória na construção da personalidade e na vida como um todo. A tristeza de Joel não é autoindulgente e resignada, mas instiga-lhe a lutar pela preservação de sua consciência. Ele é mal sucedido, é verdade, uma vez que o processo de instauração do “brilho eterno” é irreversível, mas, no final, a sua perda resulta em um amadurecimento.
Esse processo de amadurecimento emocional, necessário a todo ser humano, seria mesmo impossível se não pudéssemos aprender algo com os erros que cometemos. Sem conhecer os estágios de evolução de algo (no caso de Joel, de sua educação sentimental) não existiria a possibilidade de aprimoramento, nem de perdão. Não haveria o que chamamos de “experiência”, no sentido de uma sabedoria acumulada com o tempo. A vida não poderia ser um “tesouro de realidades”, na feliz expressão de Viktor Frankl.
Além disso, embora exista a possibilidade da aniquilação de uma lembrança ruim (o que, às vezes, é até um mecanismo natural de nossa psicologia, necessário à formação de novas esperanças), a realidade da experiência não pode ser anulada.
Por mais que se tente anular a realidade, ela retorna cobrando ações responsáveis dos indivíduos: todo o sofrimento que Joel e Clementine tentaram evitar ao apagar as suas memórias retorna nas gravações de seus ressentimentos — por meio das fitas conservadas pela Lacuna. Mas agora esses ressentimentos são injustificados. Destacado do eu, o sofrimento (que em outras circunstâncias poderia ajudar-lhes a encontrar um sentido para a vida) surge apenas mais agudo, porque agora é algo meramente gratuito.
Mudar o coração
Entretanto, é justamente por saber que o desfecho de sua história conjunta foi ruim que Joel e Clementine escolhem amar um ao outro novamente. Eles percebem que as afinidades são eletivas e que o romantismo idealista é uma ilusão. Provavelmente sem o conhecimento das fitas enviadas por Mary Svevo (Kirsten Dust) — outra vítima da ilusão de uma vida privada de todo sofrimento — seu relacionamento estaria de novo condenado ao fracasso.
Porém, despidos da fantasia que idealiza a pessoa amada — despidos da “mentira romântica” em que eles mesmos se colocaram por meio da aceitação de certos estereótipos — Joel e Clementine começam o novo relacionamento já conhecendo todos os defeitos um do outro. Essas duas personagens quebradas, melancólicas, às vezes inocentes, às vezes malvadas, apresentam uma visão profundamente madura do amor.
Nas últimas imagens do filme, enquanto o casal caminha pela praia de Montauk — cenário singularmente significativo dentro de sua história — a letra da canção de Beck diz o seguinte: “Change your heart/ Look around you./ Change your heart/ It’ll astound you./ And I need your lovin’/ Like a sunshine./And everybody’s gotta learn sometime”.3 Tais palavras são uma nítida incitação a uma postura responsável perante o sofrimento.
Joel e Clementine assumem, afinal, o que C.S. Lewis chamou de o verdadeiro impulso de Eros, representado na seguinte frase: “Deixai que os nossos corações se quebrem contanto que quebrem juntos”. Eles descobrem que, quando “mudamos o nosso coração” e o predispomos a amar sem ressentimentos, além de “nos surpreendermos” de modo positivo, acabamos por nos aproximar do verdadeiro aprendizado do amor.
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Esta versão da música é muito boa.






Excelente texto, Leandro! Com certeza um dos seus melhores
Meu filme favorito e minha crítica favorita desse filme estão no Substack agora! Yay